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Uma superinvasão no micromundo de minibrasileiros

Júlia Falivene Alves

A presença da TV em nossos lares tornou-se ainda mais marcante desde que ela começou a ser usada também para outros fins como o videocassete, video-game, teletextos, etc.

As crianças da classe média urbana que moram em apartamentos e já nasceram com televisão em casa são as que mais assistem, numa média de seis horas diárias. Aos 19-20 anos terão passado mais tempo "televendo" do que em qualquer outra atividade, exeto o sono.

Segundo alguns psicólogos, muitas crianças têm substituido pais, professores e outros adultos do seu círculo de amizades pelos telepersonagens e heróis, tomando-os como modelos na estruturação de suas personalidades. Muitas delas preferem o video à companhia dos pais.

Produtos de uma sociedade que substituiu o gramado pelo concreto, tornou as ruas perigosas e trocou os quintais, jardins e terrenos baldios por minúsculos play-grounds. Pouquíssimos meios sobram a essa "infância confinada" de se distrair, além da TV, dos quadrinhos e dos brinquedos industrializados.

Tantos os enlatados da TV como os quadrinhos oferecidos a nossas crianças utilizam cenas com exesso de imagens em movimento contínuo e ultra-acelerado. Como também cada minuto é muito caro no vídeo, esse ritmo se intensifica ainda mais durante os comerciais.

Sem tempo para decodificar as mensagens recebidas e refletir sobre seus significados, as crianças vão incorporando como verdadeiro, tudo que lhe és apresentado, desenvolvendo pouquíssimo o espírito crítico e a necessidade de pesquisa para comprovação. São facilmente persuadidas a seguir as "imposições" de modelos que lhes são feitas porque isso acontece de forma agradável, sedutora e aparentemente "racional".

Por isso a publicidade lhes apresenta artigos com propriedades e poderes que realmente não têm. Além disso, garante a força de pressão das crianças sobre seus pais, mesmo no consumo de produtos que não lhes dizem diretamente respeito, oferecendo-lhes brindes, figurinhas, miniaturas e cupons.

Quanto aos temas e personagens do mundo televisivo (seriados, desenhos, anúncios, etc), algumas características constantemente detectadas refletem sem dúvida a ideologia dominante: machismo, adultocentrismo, racismo, superficialismo, conformismo, etc. Além disso, as ações se desenvolvem dentro de tramas que podem conduzir tanto à agressividade quanto à insensibilidade e mesmo à apatia diante do sofrimento humano.

Nos enlatados, em geral predominam homens, na faixa etária de 24 a 45 anos, que são comumente profissionais liberais, defensores da lei, detetives, etc., aparecendo rarissimamente operários e trabalhadores rurais. No universo apresentado, tudo se compra, se vende e se consome, nunca aparecendo o desenvolvimento ou a origem humana de seu processo de produção. Enfim, à criança é apresentado o sistema capitalista "sem a presença incômoda do proletariado". Por isso a única ameaça ao "bom andamento do sistema" vem dos ladrões, corruptos, traficantes e espiões, e não das contradições internas e conflitos sociais dele originados.

Acontece também ,e isso é grave, que pela aparência física ou por outras indicações sutis (como nomes, língua falada e vocabulário), grupos nacionais ou classes sociais mais baixas. Como é muito comum que apresentem tiques nervosos, gestos compulsivos e atitudes de maldade ou insegurança, a marginalidade e a subversão aparecem como sintomas de desequilíbrio emocional, individual e não de desequilíbrios e de desigualdades sociais. Os problemas fiam assim desvinculados de suas verdadeiras origens e não são vistos como formas de resistência.

Os "mocinhos", ao contrário, são, em geral, brancos, limpos, equilibrados, apresentam bom grau de escolaridade e se mostram muito inteligentes, reforçando, assim, a idéia de que a normalidade e a saúde mental estão ligadas ao ajustamento às normas sociais, não importando a quem elas beneficiem.

Se os "mocinhos" e ""mocinhas" são em quase 100% dos casos brancos, então aos outros grupos étnicos ficam reservados os papéis de coadjuvantes, figurantes e, não raro, subalternos.

Exeto pelas super-heroínas (na melhor das hipóteses) ou bruxas e feiticeiras, que aparentemente são os únicos personagens femininos liberados nas histórias, à mulher ou o papel exclusivo de esposa e mãe ou as funções tradicionalmente encaradas como feitas para ela. Até no caso das super-heroínas ou "mocinhas" que formam dupla com o super-herói ou "galã", é este ainda que acaba tomando a iniciativa e as salva no momento mais crucial da trama.

Quando há confronto estre países (mesmo imaginários), os norte-americanos (ou personagens como eles identificados) sempre são os mais idealistas, humanitários e honestos e, portanto, "os que têm razão".

No caso de viol6encia, cada vez mais presente nos desenhos e filmes infantis, ela fica mais restrita à luta entre super-heróis, policiais e gângsters ou habitantes de planetas diferentes. A viol6encia originada na luta de classes está ausente do mundo apresentado para a criança, bem como a militância política, a solidariedade de grupo, os movimentos de resistência social, etc. Foram banidos como vias de acesso a um mundo mais justo e socialmente equilibrado. As soluções dos problemas acabam ficando restritas à competência individual dos heróis.

 

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