Joel Rufino dos Santos * O que é Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)? É a média dos indicadores de humanização de uma população (um bairro, por exemplo). Se o leitor pensa que é isso, errou. Criado pela ONU em 1990 o IDH, que faz furor na mídia brasileira, é outra coisa. Mede a qualidade de vida de uma cidade e seus bairros. Vai de 0 a 1 e combina três indicadores: acesso ao conhecimento, ao trabalho e aos recursos monetários. Qual o bairro carioca mais humanizado e o menos? Não adianta votar, aliás não há votação. Se o leitor acreditou que o IDH da ONU tem a ver com humanização, humanismo e qualidades humanas está enganado. O assunto é estatístico. Processarei a ONU, e a mídia brasileira que "vendeu" o IDH, por propaganda enganosa. Fomos induzidos a pensar que o índice mede o grau de humanização dos moradores, mas mede é o seu grau de riquesa (ou pobresa). Por outras palavras: mede a quantidade de Primeiro Mundo que cada bairro tem. Lagoa (o vencedor) ficaria melhor na Itália, Acari (o perdedor) em Honduras ou Argélia. Quando a ONU diz humano está querendo dizer rico. E quando diz baixo índice de desenvolvimento humano, pobre. Ninguém de são juízo é contra medir aqueles itens. A medição, dando uma idéia precisa de desigualdade, ajudará governos bem intencionados a distribuir melhor seus investimentos. O problema é que chamar de humano o que é rico, e de pouco humano o que é pobre tem uma finalidade: encobrir que os menos humanos são os mais ricos. A humanização está aberta a todos: as pessoas, os bairros, os países ricos podem se humanizar. Cristo o disse a Zaqueu, o publicano (terceirizador de cobrança de impostos), que trepara numa jaqueira para vê-lo: "Dá o que tens e segue-me." Zaqueu enriquecera escorchando os bairros de pouco desenvolvimento humano. Não topou. E talvez (me explicava, em criança, um pastor) Cristo nem estivesse falando de dinheiro. Falava de inteligência, energia, humanismo. Zaqueu tinha tudo para ajudar os outros, mas desceu da jaqueira e continuo a buscar o lucro. Onde moraria Zaqueu hoje? no bairro de maior IDH do Rio: tinha acesso ao conhecimento, ao trabalho e aos recursos monetários. O IDH deixa de fora o primeiro item da humanização: a responsabilidade dos que têm muito ou alguma coisa com os que não têm nada. Riquesa e pobreza são função uma da outra. Se tem demais aqui, tem de menos ali. O humanismo, idéia recente na história, é: o que acontece com qualquer homem, em qualquer lugar. Não se deve, portanto, ser humano sozinho: ter qualidade de vida sozinho, respirar ar puro sozinho, ter plano de saúde sozinho, etc. Nâo se deve, mas se pode. O discurso da solidariedade humana nâo convence a todos. Quanto mais modernos, quanto mais devotos do sucesso, mais eles se distanciam do humanismo. A própria razão, que no início foi posta a favor de todos os homens (no Iluminismo francês), se tornou cínica: OK, rapaz, as conquistas da ciência são para todos, mas não leve isto a sério. Conheço uma estudante de medicina que depois de se formar (ela diz) vai curar indianos em Bombaim. Os colegas que a acham maluca, seriam reprovados em humanização, mas tendo acesso ao conhecimento, ao trabalho, e aos recursos financeiros talvez ganhassem a nota máxima do IDH. A ONU também não mede este outro fator de humanização: o espírito comunitário. Que é espírito comunitário? É a existência real fora do egoísmo humano. É a vivência atual de uma solidariedade que só existirá no futuro, se existir. É uma utopia. Muitos jovens de bairros ricos se dedicam a ajudar moradores de bairros pobres. Quantos jovens moram na Urca, em Maria da Graça, em Vargem Grande? vamos medir. O que chamamos desenvolvimento é um B.O. (remédios sem princípio ativo, bom para otário). Desenvolvimento é um nome bonito para a utopia do capital: a felicidade chegará quando todos forem ricos. Mas como, se a riquesa é o oposto necessário da pobreza? Os ricos da utopia capitalista explorarão a quem? Proponho à ONU medir o grau das duas utopias (a de Cristo e a de Zaqueu) dos bairros, das cidades e dos países. Seria um retrato mais fiel da vida e de suas contradições. Que bairro do Rio tem mais academia de idolatrar o corpo? Qual com mais criança na calçada? Qual que mais privatiza ruas com cancela e guarita? Qual tem mais cães ferozes? Qual que tem o maior número de comerciantes que não dão nota fiscal e se um menino rouba cinco reais corre para o telefone discar 190? Qual cheira mais cocaína e exige prisão para os meninos que vendem cocaína? Qual bairro corrompeu o maior número de guardas de trânsito este ano? Qual votou majoritariamente no candidato a prefeito que, espertamente, prometeu primeiro segurança e só depois escola? Quais os bairros que têm mais prédios com sirene de garagem, um negócio da China para os poucos fabricantes, infernizando os velhos que precisam de silêncio? Em que bairro residem mais gerentes de laboratório farmacêutico? Qual, em suma, com mais egoístas por metro quadrado? Zaqueu mora na Lagoa, Cristo, que o convidou a dar o que tinha, mora em Acarí. E, aliás, já tem retrato falado. * Escritor e professor da UFRJ (Jornal do Brasil, 01.04.2001) |